
Aquela bailarina... Aquela vida.
Mais uma lembrança...e mais saudades. Cada cômodo, cada móvel...
Os gatos sorriram...(sorriram?!?)
Parei no corredor e fui direto ao seu quarto. Meus olhos passearam pelos espaços mínimos.
Sentei-me na sua cama limpa, pura, esticadinha como sempre... E aquela bailarina???
A covardia não me deixou manuseá-la, mas gostaria de tê-la colocado para tocar...
Fiquei pouco tempo. Passei pela sala e olhei uma nova cadeira que substituia a sua, mas "vi" você lá...É...acho que estava lá.
Acho que você ficou feliz... Engoli 'seco" duas ou três vezes. Parece que 'passaram alguns elefantes' pela minha garganta, mas...até que 'desceram direitinho' (pelo menos naquela hora). Conversei com ele (não era assim que "ele" se referia a você?). Pois bem, conversei com ele assuntos aleatórios, procurando palavras imbecis...só que me desconcentrava até para as palavras imbecis.
Olhava através da janela que dava para o seu quarto e parecia que você estava ali ou que iria aparecer de repente. (...)
A agonia começou desde que cheguei e estacionei...Tremia...Titubeava...
'Acho que não vou entrar.'
É determinei - "Não vou entrar!"
Toquei aquela campainha de som familiar e... ENTREI....
Uma onda visual e emocional me perturbava. Fiquei meio tonta. Tudo de volta, vozes, assobios.
A casa com ele, mas vazia. A casa comigo, mas vazia. A casa com a cachorrinha que ele arrumou, com os gatos, passarinhos, plantas...mas...VAZIA...
Tudo vazio. Um vazio imenso, um nó na garganta. Despedi-me.
Fui à escola, ri, aprovei alguns alunos, reprovei outros...
Tudo indo, tudo zen de novo...TUDO para MASCARAR o que havia sentido há poucas horas atrás.
Acabou o expediente - "Tchau, colegas! Bom feriado!" - tudo artificial, mecânico...como sempre.
Entrei no carro, deixei as caronas nos lugares de sempre e liguei o rádio: Titãs - "Eu não tenho mais a cara que eu tinha, eu não encho mais a casa de alegria..."
'Titãs' é o máximo!
E a gente, às vezes, ouve o que realmente precisa...ou para melhorar ou para nos tornarmos mais melancólicos ainda.
Cheguei a casa, saltei do carro, encontrei meus pais, que souberam que estive lá na sua casa - aliás, NA MINHA CASA DE INFÂNCIA e me deram os parabéns (PARABÉNS?!? Exatamente pelo quê??). Orgulharam-se de mim e eu com a mesma apatia do início, disse que estava tudo certo, tudo indo...
Entrei na minha casa (não a da infância, não a da adolescência...e sim, a casa da maturidade (como assim?..rs.) e, finalmente, DESABEI. Até que aguentei muito. Chorei no chuveiro, chorei no quarto, na sala. Doía tanto.
Eu não choro com mágoa, com raiva, não culpo a ninguém, somente choro de saudade. Aquela saudade que chega a arder o peito, a garganta, e que nos consome por inteiro. Saudade de quando ia dormir com você e você colocava as cadeiras ao lado da cama para que eu não caísse. Saudade dos biscoitinhos amarelos, dos danoninhos, das bonecas, saudade daquelas lacraias verdes dos coqueiros que a gente prendia nas vasilhinhas de manteiga vazia, saudade dos 'quebra-pedras' que eu ficava olhando você 'catar'...
Saudades muitas...daquele tempo que se foi...
Mas, "o Vóóóó" (assim que eu te berrava...), sinto falta das nossas conversas, dos seus cochilos, enquanto eu acabava de falar sozinha...rs
Sinto falta dos programas do Sílvio Santos, da sua carne assada, da sua torta de morango, do seu pudim, do seu "microondas de ferro" (aquela panela preta horrorosa, mas que ficava belíssima nas suas mãos...rs) e daquela vez que fui lá rapidinho, dizendo que não poderia demorar muito porque ainda não tinha feito o jantar e você tirou duas coxinhas de galinha da sua panela, colocou-as num potinho e disse que era mim e para o Josias.
Sinto falta do seu álbum antigo de retrato, daquelas fotos em preto e branco...umas até coloridas artificialmente, rs...Que saudade daquela coisa brega!
Sinto falta de você como a pessoa mais humilde e sofrida, mas que nunca deixava transparecer, estava sempre sorrindo, sempre assobiando.
Sabe, hoje, por coincidência é o seu aniversário... Choro, após algum tempo de sua ida.
Ser iluminado, anjo, 'vó' que foi capaz de perdoar o imperdoável, de receber em sua casa o que não deveria ser receptível...
VOCÊ é SUPERIOR a isso tudo, você é santificada...
Eu acho que ficou feliz com a minha ida à sua casa.
Na verdade, houve ali um paradoxo porque, como disse, me senti vazia, apática por não abraçá-la. Em contrapartida, senti uma paz, uma tranquilidade por ter regressado à minha casa de infância.
(Bethânia Santos - 15.11.07 - Para vovó Alice...)


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